Mais uma tentativa de negar a importância do carbono no aquecimento global

Global-Warming

Um relatório divulgado na semana passada acusou cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática) de esconderem o que seria uma boa notícia: o clima global seria menos sensível ao aumento da concentração atmosférica de CO2 (dióxido de carbono) do que afirmam há décadas esses pesquisadores. Em outras palavras, a ciência estaria escondendo da humanidade a informação de que podemos ficar menos preocupados com a emissão de gás carbônico pela queima de carvão e de outros combustíveis, pois esse composto não seria o vilão doaquecimento global.

O relatório mal havia sido repercutido por alguns sites de notícias e blogs estrangeiros quando surgiram as primeiras constatações de que ele não passava de mais uma tentativa de desmoralização de todo o esforço iniciado há décadas para reduzir as emissões de carbono na atmosfera por meio da queima de carvão e outros combustíveis fósseis pelas indústrias, por usinas termelétrica e por veículos.

Pesquisadores ‘independentes’

Ainda era Quarta-Feira de Cinzas (5.mar) quando um leitor deste blog me enviou o link do press-release “Novo relatório: o clima é menos sensível ao CO2 do que sugerem os modelos“, distribuído pela Fundação da Política do Aquecimento Global (GWPF) , sediada em Londres, no Reino Unido. Esse material para a imprensa fornecia links para duas versões — um artigo completo e um sumário — do relatório “Um assunto sensível: como o IPCC enterrou boas notícias sobre o aquecimento global”. Os autores do estudo são o pesquisador britânico Nic Lewis, apontado no release como “cientista do clima independente”, e o jornalista científico dinamarquês Marcel Crok.

Segundo esse relatório, o IPCC teria deixado de divulgar dados que projetariam o aumento da temperatura média global terrestre até o final deste século oscilando entre 1,3°C e 1,4°C, o que estaria cerca de 2°C abaixo da média de 3,2°C divulgada pelo painel intergovernamental, como mostra o gráfico a seguir.

Adaptação de gráfico elaborado por Nic Lewis e Marcel Crock, que afirmam que a variação climática é menos sensível ao carbono do que os modelos do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática). A faixa azulada se refere à projeção de aumento de 1,3°C e 1,4°C na temperatura média global até o final do século, que, segundo os autores, se basearia em dados deliberadamente ocultados pelo IPCC, que aponta a variação média de 3,2°C referente à área alaranjada do gráfico

Adaptação de gráfico de Nic Lewis e Marcel Crock em “A Sensitive Matter: How The IPCC Buried Evidence Showing Good News About Global Warming”

Militantes anti-IPCC

Minhas primeiras buscas de mais informações sobre o assunto me deixaram com uma boa dose des desconfiança: a GWPF é uma fundação com um esforço concentrado em contestar a importância das emissões de carbono e combustíveis fósseis para o aquecimento global e os trabalhos anteriores de Lewis me pareceram ser um trabalho de militância negacionista do IPCC.

Deixei o assunto para o fim de semana, quando percebi que Greg Laden, bioantropólogo e divulgador científico dos Estados Unidos já havia posto os pingos nos is, desqualificando o relatório de Lewis e Crock com o post “Um novo relatório falso sobre mudança do clima“.

Laden mostrou que os dois autores haviam, na verdade, limitado sua tese a dados que o próprio IPCC havia registrado, mas o afirmaram desconsiderando toda uma série de outras evidências que necessariamente puxam para cima a faixa de variação média da temperatura projetada para o final do século.

Interesses não científicos

Os estudos do IPCC não são textos sagrados que não podem ser contestados. Existem, aliás, pesquisadores sérios que têm ressaltado a possibilidade de o aumento da temperatura média global desde o século 19 estar relacionada a fenômenos independentes da ação humana, como a variação da atividade solar. Mas é outra coisa querer negar a importância da redução da emissão dos chamados gases-estufa, que tem proporcionado, entre outros resultados, esforços para tornar a humanidade menos dependente do consumo crescente de energia, seja por meio de novas tecnologias, seja por meio da própria mudança de atitude por parte das pessoas e das instituições.

Curiosamente, essa corrente negacionista do IPCC e autodenominada “independente”, no final das contas, é em grande parte bancada por entidades ligadas ao setor energético, como é o caso da GWPF.

Para os que quiserem saber mais sobre o assunto, copio a seguir alguns links. Os quatro primeiros são sugeridos por Greg Laden:

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